
A adida cultural do Conselho Diretor dos EUA, Jean Manes,
está no Brasil desde agosto de 2009

Bolsa Dra. Ruth Cardoso possibilita estreitar relações e intercâmbio entre pesquisadores 
A professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), Lia Zanotta Machado, é a primeira participante do Programa de Bolsa Dra. Ruth Cardoso. O programa apóia a participação de professores ou pesquisadores brasileiros atuando em instituições nacionais, em atividades de docência e pesquisa na Universidade de Columbia, em Nova York (EUA). Os candidatos devem ter atuação acadêmica reconhecida nas áreas de história do Brasil, antropologia, e sociologia com enfoque em movimentos sociais contemporâneos.
O programa, queé uma iniciativa conjunta da Comissão Fulbright, Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e Universidade de Columbia, está com inscrições abertas, até 15 de fevereiro de 2010.
Graduada em ciências sociais, com mestrado em sociologia e doutorado em ciências humanas, todos pela Universidade de São Paulo, além de pós-doutorado em antropologia pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, a professora Lia Zanotta Machado tem atuação voltada, principalmente, a temas que envolvem questões de gênero, violência, estudos feministas, direitos à saúde e antropologia das políticas públicas de gênero e de saúde.
Ela é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Antropologia, membro do Comitê de Monitoramento do Plano de Políticas Públicas para as Mulheres, da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres, e Conselheira Titular do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

A professora Lia Zanotta Machado é a primeira participante
do Programa Dra. Ruth Cardoso.
1. O que representou para a senhora ter sido escolhida para participar do Programa de Bolsa Dra. Ruth Cardoso?
O programa Dra. Ruth Cardoso previa um perfil de pesquisador e professor antropólogo, sociólogo ou historiador que trabalhasse com movimentos sociais. Venho trabalhando sobre o movimento social feminista no Brasil, e com questões de violência, direitos humanos, direitos à saúde e direitos sexuais e reprodutivos no Brasil. Concorri ao edital. Ser escolhida foi uma enorme satisfação e representou para mim a possibilidade de estreitar as relações e o intercâmbio com pesquisadoras e pesquisadores norte-americanos e latino-americanos em Nova York.
2. A senhora já está há cerca de dois meses na Universidade de Columbia. Que trabalho pode realizar nesse curto espaço de tempo?
Na Universidade de Columbia, tenho estabelecido contatos com antropólogos, cientistas sociais e historiadores. Apresentei uma palestra em Seminário de Estudos Brasileiros da Columbia University e um trabalho em colóquio organizado por professores da City University of Columbia. Pude me dedicar à pesquisa proposta: comparar as indagações atuais das pesquisadoras universitárias estado-unidenses dos Estudos Feministas, Estudos das Mulheres e Estudos de Gênero com as questões desenvolvidas pelas pesquisadoras feministas brasileiras. Para isso, tenho participado de seminários e conferências especializados nestas áreas em Columbia University, City University of New York (CUNI), New York University (NYU) e Barnard College.
3. Como tem sido a receptividade dos alunos e da comunidade com relação a uma representante acadêmica do Brasil?
Na verdade, tenho na Universidade de Columbia um tríplice vínculo, o que me facilita os contatos e a produtividade do intercâmbio. O Instituto de Estudos Latino-Americanos (ILAS) e o Centro de Estudos Brasileiros de Columbia University me receberam muito bem e colocaram a minha disposição um escritório para trabalhar. A partir do ILAS tenho contatos com vários pesquisadores que estudam a região latino-americana. Fui também muito bem recebida e estou integrada ao Departamento de Antropologia de Columbia, com o qual interajo nos Seminários lá oferecidos e na oferta de dois cursos no próximo semestre: 1) Gênero, Feminismo e Diversidade Cultural e 2) Feminismo Brasileiro e Proposições Internacionais. Fui também muito bem recebida pelo Institute for Research on Women and Gender (IRWaG) (Instituto de Pesquisas sobre Mulheres e Gênero) . Os cursos que darei fazem parte, ao mesmo tempo, da oferta do Departamento de Antropologia e do IRWaG. Estudantes já vieram me procurar para saber dos cursos, mostrando grande interesse.
4. A senhora tem se dedicado a questões ligadas a gênero, violência, estudos feministas, direito à saúde, e modernidade latino-americana. Qual é a contribuição que a Universidade de Columbia pode trazer a seu trabalho? Não são realidades diferentes?
A área a que me dedico relativa a direitos humanos e direitos das mulheres é uma área que abrange proposições concertadas entre as agências intergovernamentais e que englobam as mais diversas regiões geográficas e a ampla diversidade cultural. Embora os direitos humanos sejam pensados como universais, suas formas de serem traduzidos e entendidos é altamente variada, respondendo aos efeitos da diversidade cultural e das diferenças das formas e da força dos movimentos sociais nacionais que lutam pela plena implementação dos direitos humanos. Por serem realidades diferentes, as indagações em torno aos direitos humanos e aos direitos das mulheres sempre apresentam perspectivas distintas. Daí, a extrema relevância da comparação e do diálogo.
Dou alguns exemplos. As pesquisadoras feministas que tenho acompanhado se mostram extremamente sensíveis à necessidade de o feminismo internacional levar em conta a diversidade cultural nas propostas de mudanças de legislações nacionais. De outro lado, acompanhar, estando aqui, o debate sobre a Reforma do Sistema de Saúde nos Estados Unidos, permite perceber que a idéia brasileira de direito do cidadão a saúde como dever do estado, não é uma idéia consolidada aqui. É uma proposição em debate que divide a opinião partidária e a opinião pública. Aqui a idéia de liberdade parece ser soberana. No Brasil, discute-se a qualidade do Sistema Publico de Saúde, mas não mais o conceito de direito a saúde. Todas estas indagações fazem do diálogo intercultural um importante estímulo a reflexão.
5. Por outro lado, que contribuição a senhora poderá dar para os estudantes norte-americanos, a partir de sua experiência na Universidade de Brasília?
Tenho lecionado na Universidade de Brasília há muitos anos. Já lecionei na Universidade do Chile e na Universidade de Buenos Aires. A interação com os estudantes, para mim, é sempre rica. A diversidade das culturas nacionais e das diferentes “culturas institucionais universitárias”, acrescenta desafios e ganhos especiais. Variam mais os autores lidos e as leituras prévias referenciadas conhecidas pelos estudantes. Os supostos “dados sobre a realidade” que se supõem conhecidos não são os mesmos. Muito da realidade latino-americana não faz parte do conhecimento de uma boa parte dos estudantes aqui. Assim, entendo que haverá contribuições recíprocas entre professora e estudantes.

Fulbright e Embaixada dos EUA participam de eventos em Natal 
Em novembro, representantes da Comissão Fulbright estiveram em Natal para entrevistar candidatos ao Community College, programa que oferece até 50 bolsas, com um ano de duração, a estudantes de cursos superiores de tecnologia. A entrevista foi realizada no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte.
Na oportunidade, o diretor da Fulbright, Luiz Valcov Loureiro e a adida cultural da Embaixada dos Estados Unidos, Jean Manes, reuniram-se com ex-bolsistas potiguares da Fulbright. Durante um almoço, o encontro foi com ex-bolsistas do Community College e, em um jantar, a reunião foi com ex-participantes de diferentes programas da Fulbright.

Da esquerda para a direita, Glayna Braga, Arthur Carriço, João Nascimento Neto,
Belchior Rocha,
Wyllys Tabosa, Jean Manes, João Batista, Marcelo Camilo, Enivaldo Bonelli (atrás) e Luiz Loureiro.

Ser bolsista amplia horizontes 

Para Cláudia Pereira, ser bolsista Fulbright é uma oportunidade de crescer. |
“Do sonho à realidade, das nuvens aos pés no chão, é assim que vejo a experiência que tive como bolsista. A minha vida hoje se divide em antes e depois da bolsa”, diz a paulistana Cláudia Conceição Pereira, bolsista do Community College no Parkland College, em Champaign, Illinois, no período de julho de 2007 a julho de 2008. Para ela, participar de uma experiência como essa é uma oportunidade única na vida para crescer como pessoa e como profissional. “É uma experiência para se levar por toda a vida”.
Cláudia, que era aluna do curso superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas na Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL) em São Paulo, na época em que participou do programa, assegura que ampliou seus horizontes e um novo patamar de oportunidades se abriu na sua frente. Em sua opinião, o fato de ter convivido 24 horas por dia, durante um ano, com as diferenças de idiomas, culturas, costumes e tradições, ajudou a transformá-la em uma nova pessoa, mais tolerante. “Aprendi a lidar com situações problemáticas e como tratá-las, de maneira a garantir o bem-estar, procurando sempre uma convivência harmoniosa”, garante. |
Mesmo sem experiência profissional na área de tecnologia da informação, ela conseguiu seu primeiro emprego, em uma consultoria de informática, três meses após seu regresso dos Estados Unidos. “Sem experiência, mas com uma bagagem de estudos em outro país. Isso foi importante para minha contratação”, destaca. Dez meses depois Cláudia recebeu uma nova proposta de emprego, onde a experiência da bolsa foi decisiva para a contratação, pois teria que realizar contatos internacionais. Ela trabalha, atualmente, no suporte de uma ferramenta própria da Agência Estado, uma empresa do Grupo Estado, que transmite dados das bolsas de valores do mundo, em tempo real, e tem clientes em várias partes do mundo.
Logo que chegou aos Estados Unidos, Cláudia tinha um certo receio de falar com as pessoas, pois não entendia praticamente nada do que era dito em inglês. Mas depois de três meses já conseguia se comunicar. Segundo ela, as maiores dificuldades que enfrentou foram o frio, a saudade da família, e a convivência com pessoas diferentes em uma mesma casa. Além disso, também o método de ensino americano, que é diferente do brasileiro: “é muito intenso e exige muita dedicação”, avalia.
Entre os aspectos que destaca como positivos estão: a hospitalidade dos norte-americanos, interessados em colaborar em todos os aspectos, a solicitude dos professores em sala de aula, dispostos a ajudar no que for preciso, e a equipe de pessoas encarregada de dar suporte aos bolsistas em questões que abrangem até auxílio às dúvidas mais corriqueiras. Cláudia destaca, ainda, entre os fatores positivos, a qualidade de vida e o acesso fácil a diversões, tais como cinema, jogos, teatro, viagens e passeios, além das diferenças culturais encontradas e que proporcionam um maior conhecimento sobre outras culturas do mundo.
Criado com o objetivo de fortalecer a formação de tecnólogos em instituições de ensino superior focadas na prática profissional, o Community College é um programa que oferece até 50 bolsas, com duração de um ano, para estudantes de cursos superiores de tecnologia no Brasil, nas áreas de administração e gerenciamento de negócios; comunicação, tecnologia da informação; turismo e hotelaria, e tecnologias de engenharia.

Cresci como ser humano e cidadão 
De volta ao Brasil, depois de quatro anos na Universidade de Michigan, em Ann Arbor, como bolsista Capes/Fulbright de Doutorado nos Estados Unidos (2005 a 2009), o matemático Richard Vasques se prepara para um novo desafio. No início de 2010, ele assume o cargo de consultor na empresa McKinsey & Company, em São Paulo. Enquanto isso, aproveita para trabalhar na edição de alguns artigos para publicação, resultantes de sua tese.
Natural de Gravataí (RS), com bacharelado em matemática e mestrado também em matemática, ambos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Richard fez parte do grupo de bolsistas entrevistados, em agosto de 2008, pela McKinsey & Company, quando foi convidado a trabalhar na empresa. Ele também tem se dedicado ao treinamento oferecido pela McKinsey e já participou de um mini MBA na Áustria.
Segundo Richard, a experiência como bolsista nos Estados Unidos foi maravilhosa e serviu para expandir seus horizontes em muitas áreas, não só na profissional. “A oportunidade de morar em outro país por si só já seria fantástica, mas fazê-lo em um ambiente tão internacional e rico de culturas como é a cidade de Ann Arbor, e ainda numa das melhores universidades do mundo... é difícil de descrever”, salienta Richard. Ele diz que foi um privilégio poder conviver no dia-a-dia com pessoas das mais diversas nações, de diferentes continentes e culturas, dentro de uma atmosfera acadêmica do mais alto nível. “Aprendi muito, fiz muitos amigos, cresci como ser humano e como cidadão - não de um país, restrito por fronteiras, mas como cidadão deste planeta”, acredita.
No sentido profissional, a experiência foi tudo o que ele esperava e muito mais. “Estudar e aprender com pesquisadores de ponta, líderes de suas áreas de estudo, conviver com cientistas e professores que são referência mundial, foi uma oportunidade pela qual batalhei muito e a qual não desperdicei”, ressalta o matemático, que defendeu a tese Difusão Anisotrópica de Partículas Neutras em Meio Estocástico (Anisotropic Diffusion of Neutral Particles in Stochastic Media).
Richard diz que cresceu em diferentes aspectos, seja como professor (ministrando aulas todos os outonos), como pesquisador independente, ou como cientista. “A facilidade de acesso ao conhecimento, seja ele em forma de mentes capazes e dispostas, seja em forma de estrutura - bibliotecas, laboratórios, recursos - é fenomenal, e foi sem dúvida um fator marcante e importantíssimo nesta jornada”, destaca. Para ele, ser bolsista de doutorado nos Estados Unidos é uma oportunidade tão enriquecedora em tantos níveis - cultural, pessoal, profissional, social - que se alguém tiver a chance, “deve agarrá-la com unhas e dentes”.

Richard Vasques e sua esposa na praça do
Campus Central da Universidade de Michigan
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